
«Se nos próximos anos me virem na rua, em qualquer parte do Mundo, e forem adeptos do Manchester City, venham dar-me um abraço. Vou precisar disso.» A frase é de Pep Guardiola, no emocionadíssimo discurso de despedida, em pleno relvado do Etihad, no tributo que clube e adeptos lhe prestaram — tal como a Bernardo Silva e John Stones — após dez anos de vida em comum.
Por impulso, adepto do City me senti. Pela maneira rara como soube agradecer. Pela emoção. Pelas lágrimas de quem sente que há locais que passam a ser família. Acredito mesmo que Guardiola precisará desses abraços. Se me cruzar com ele, abraço-o também. Grato.
Para Cícero, filósofo, orador, político e escritor romano do século I a.C., «a gratidão não é apenas a maior das virtudes, mas a origem de todas as outras». Talvez por isso honre tanto quem agradece como quem recebe a homenagem. A gratidão é uma comunhão invisível. O futebol conquista troféus que entram na história; a gratidão pertence a outra matéria — essa que resiste ao tempo e se aproxima da eternidade. Pep e Bernardo são enormes porque se tornaram mestres de uma alquimia misteriosa no futebol: a que transforma sonhos em rotina e vitórias em memória.
De Bernardo Silva se disse que filho de doutor não dava jogador. Houve também quem tenha garantido que era demasiado baixo para triunfar. Para nossa sorte, Bernardo Silva não acreditou. Agora, deixa Manchester ao fim de nove épocas de puro perfume e nem precisa de acreditar quando Guardiola o descreve como um dos jogadores mais inteligentes que treinou. Bernardo sabe-o. Sem vaidade. Devolvendo felicidade a quem o vê jogar. Pena ter sofrido duas grandes injustiças na carreira: a lesão que o afastou do Europeu de 2016 e uma Bola de Ouro que lhe ficam a dever.






