La Vanguardia: Montenegro é “especialista em ganhar tempo”
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, está cada vez mais "pressionado" com os desafios políticos que tem encontrado pelo caminho do seu segundo mandato. Segundo o jornal espanhol La Vanguardia, o governante português tornou-se "especialista em ganhar tempo".

O jornal espanhol La Vanguardia dedicou esta segunda-feira uma análise longa e crítica a Luís Montenegro.
Segundo a publicação, o primeiro-ministro português está cada vez mais pressionado no segundo mandato e transformou-se num verdadeiro “especialista em ganhar tempo”. O jornalista Anxo Lugilde fala mesmo num “manual da resistência portuguesa”, comparando a estratégia de Montenegro à forma como Pedro Sánchez sobreviveu em Espanha durante anos com governos minoritários.
Com o anúncio de cortes no IRS e do suplemento para pensionistas, Montenegro conseguiu neutralizar a moção de censura apresentada pelo Chega, liderada por André Ventura. Ao mesmo tempo, desviou as atenções dos problemas que afetavam o ministro da Administração Interna. Para o La Vanguardia, o primeiro-ministro “saiu do debate mais ileso do que o previsto”, beneficiando da abstenção dos socialistas.
O jornal recorda que Montenegro chegou ao poder em abril de 2024 com pouco mais de um terço das cadeiras (80 em 230). Nas eleições de maio de 2025 o número subiu para 91, mas continua longe de uma maioria estável. As últimas sondagens mostram uma queda de cerca de seis pontos percentuais e colocam o líder da AD em terceiro lugar, atrás de José Luís Carneiro (PS) e André Ventura (Chega).
O fiasco do candidato apoiado pelo PSD nas eleições presidenciais de janeiro, que ficou em quinto lugar, marcou o início de um ano difícil. A gestão da tempestade Kristin no centro do país também contribuiu para a erosão da popularidade do Governo.
O La Vanguardia destaca ainda a guerra interna no PSD. Pedro Passos Coelho, antigo mentor de Montenegro e primeiro-ministro entre 2011 e 2015, surge agora como um dos seus maiores críticos ideológicos, alimentando uma disputa cada vez mais aberta dentro do partido.
A lista de episódios polémicos também é referida: o caso Spinumviva, a reforma laboral, a viagem ao Mundial em plena época de incêndios e, mais recentemente, a investigação que envolve o ministro Luís Neves. O jornal nota que Neves é “tão amado pela esquerda quanto desprezado pela extrema-direita” e que o Chega encontrou nele munição para a ofensiva política.
Apesar de tudo, a eleição de António José Seguro como Presidente da República deu algum fôlego a Montenegro. Seguro assumiu o cargo prometendo estabilidade institucional e o fim do “frenesim eleitoral”, o que beneficia o atual Governo minoritário.
José Luís Carneiro, líder do PS, justificou a abstenção na moção de censura como “um voto de desconfiança” no Governo, mas a declaração passou quase despercebida perante o pacote de ajuda de 800 milhões de euros anunciado por Montenegro.
O La Vanguardia termina a análise com uma comparação direta: Montenegro vive atualmente uma versão portuguesa e de direita do “Manual da Resistência” de Pedro Sánchez. Com quase dois anos e meio de Governo minoritário, o primeiro-ministro português procura constantemente ganhar tempo para se manter no poder.






